Trabalho pela paz, num país dividido

Trabalho pela paz, num país dividido

“Eram tão diferentes dos ingleses e tão parecidos connosco que logo a seguir eu quis aprender português”, conta Dijana Miljatović com o sorriso maroto a denunciar o prazer de articular num belo português as memórias dos militares portugueses que estiveram na Bósnia-Herzegovina. Maroto também porque uma das razões que apresenta para portugueses e bósnios serem parecidos é o gosto por piadas - marotas, claro. Mas a boa disposição reina, indiferente à língua em que se fala: a equipa da ONG Genesis tem a capacidade de se reinventar, abrir a novas ideias e responder com energia a todos os desafios - muitos, num país dividido.

Desta vez foi através de um intercâmbio de experiências entre parceiros do programa “Education on Europe” da Fundação Robert Bosch - onde a 4Change participa e desenvolve novas abordagens da educação para a cidadania europeia - que foram reforçadas as relações de parceria e amizade com a organização de educação pela paz Genesis. Uma visita de 27 a 29 de Janeiro à equipa liderada por outra Dijana, a dinâmica Pejić, trouxe muita inspiração na bagagem - mas levou também algumas ideias para discutir: a literacia para os média como abordagem para a educação para a cidadania e para compreender o mundo complexo e polarizado onde vivemos.

Bem complexa é a situação deste país dos balcãs - a Bósnia-Herzegovina é um país literalmente dividido entre as minorias étnicas (bósnias, croatas, sérvias) e/ou religiosas (católicas, ortodoxas e muçulmanas) - e gerido por uma entidade criada para o efeito (a República Serbska, não confundir com a Sérvia) durante o processo de pacificação pós-guerra civil pós-dissolução da ex-Jugoslávia. Dizem as anedotas locais que os cidadãos bósnios são todos um bocadinho de cada (religião ou etnia) e o que levou à divisão atual foi o poder e o dinheiro. Felizmente os Bósnios enfrentam o dia-a-dia com bom humor.


É que na realidade toda a administração do país é dividida entre etnias/religiões num gasto imenso de burocracia e logística, parecendo faltar espaço e dinheiro em todo o lado. Visitamos com a equipa da Genesis uma das dezenas de escolas básicas onde trabalham: na vila de Jajce, curiosamente onde o ‘unificador’ da Jugoslávia, o Marechal Tito, proclamou a independência dos Jugoslavos na luta contra o regime nazi. Hoje, as crianças dos 7 aos 15 anos frequentam num lado do mesmo edifício a escola para muçulmanos e do outro para cristãos, numa difícil gestão feita por dois diretores diferentes. Mas a equipa da Genesis trabalha para todos e consegue sempre juntar todas as crianças e jovens no ginásio ou no átrio para assistirem a teatro, cinema, marionetas ou outras iniciativas de educação para a paz.


Desta vez assistimos a uma peça de teatro para pré e adolescentes sobre segurança na internet - ‘As amizades criam-se, não se adicionam’ - escrita pela fantástica Azra Talić (ex-professora primária), a criativa Ljubiša Vasić e o colega Draško Stojčevoć que representa o papel principal. E os adolescentes bósnios são como qualquer adolescente - timidez inicial ao sentar-se com os amigos, mas todos se apertam no final para caberem na plateia improvisada e se rirem das situações inventadas pela Genesis para falar de problemas reais.

É também assim que a Genesis trabalha, seja com a metodologia UNICEF dos ‘one minute videos’ (para dar voz às crianças ou, por exemplo, para prevenção de acidentes causados por minas anti-pessoais, ainda hoje aos milhares por toda a Bósnia) ou na produção de um programa de televisão para crianças. E é este espírito criativo e a boa disposição que nos cativa: queremos com a Genesis encontrar fundos para ‘Bridge the divide’: as novas literacias como forma de trabalhar a tolerância, o conhecimento do outro e a criação de uma comunidade de cidadãos global.